A diferença entre notícia e informação
Poucos sabem ou nunca se deram conta da diferença entre notícia e informação. Um professor demora uma aula inteira para explicar e definir os dois conceitos a seus alunos do curso de jornalismo. Bastaria dizer — e todo mundo entenderia — que o conteúdo escrito na bula de remédios ou no catálogo das Páginas Amarelas são mera informação. Não existe um pingo de notícia ali. Por outro lado, quando a informação recebe um banho de loja — ou ganha algum charme — pode até ganhar as manchetes. Até mesmo em determinadas páginas de jornal não existe notícia. Basta folhear as incontáveis folhas dos classificados de domingo.
À primeira vista, ali não existe notícia. Um olhar mais atento pode interpretar, no entanto, a rotina de uma cidade, um povo ou mesmo de uma época. Fundado em 1827, o Jornal do Commercio, por exemplo, exibia naqueles anos — de império e escravidão — anúncios classificados vendendo negras peitudas e boas leiteiras. Já o Correio Paulistano publicou, ainda em 1880 — poucos anos antes da abolição — que o escravo Teodoro, “pardo, de bons dentes, acostumado a lidar com “animaes”, que lê números e faz contas de memória” estava foragido.
É também pelos classificados que é possível avaliar o aquecimento do mercado imobiliário, a variação de preços entre carros novos e usados e até onde vai a credulidade de alguns. Anúncio publicado recentemente em O Globo oferece “trabalhos para afastar vícios, doenças misteriosas, falência, filhos problemáticos, impotência, depressão, insônia, trazer a pessoa amada de volta”, etc. Quando os sequestros andaram em alta, foi pelos classificados que criminosos e parentes das vítimas trocaram avisos e informações. Em outro tijolinho, o detetive Geraldo exibe a própria foto e promete investigações sigilosas nos âmbitos empresarial e conjugal. É ainda nessas páginas que as promessas aos santos são pagas, que se buscam oportunidades no mercado e que se publicam abandonos de emprego para fins legais.
Em O Estado de S. Paulo, o número de colunas de pequenos anúncios dedicados aos serviços de blindagem de automóveis revela o quanto esse negócio está se tornando lucrativo na maior cidade do país. No mesmo caderno, mais um sinal de que a violência também traz oportunidades: alguém compra jóias, relógios e brilhantes. Basta ligar para o número de telefone que aparece no tijolinho do jornal.
Anunciantes respondem pelo conteúdo
Dentro desse mercado persa abrigado pelos classificados, os jornais alertam os leitores ao mesmo tempo em que se protegem. Eles avisam que não se responsabilizam pela procedência dos anúncios tampouco pela veracidade dos conteúdos ou sequer por eventuais prejuízos deles decorrentes.
Segundo a advogada Ana Maria Cavalcanti não cabe ao jornal a responsabilidade pelo conteúdo anunciado e sim ao anunciante. Para ela, o veículo tem o direito de se preservar, responsabilizando-se apenas pelo espaço editorial. “Os tribunais de Justiça costumam ter a mesma postura. As indenizações por danos morais — motivadas por erro de informação (preço, data etc) — cabem a quem produz o anúncio, no caso, o anunciante”, afirma.
Paola Fort, que vai morar três anos na Índia com o marido e as filhas, revela que até propostas de casamento estão nos diários indianos. “As famílias de lá compram espaço nos classificados de jornais importantes e publicam informações sobre seus filhos, grau de instrução, casta e dote. A busca, geralmente, é por alguém da mesma casta ou condição social superior. É uma prática muito comum o anúncio classificado para este fim”, comenta.
Novamente folheando estes cadernos no Brasil surge, em outro anúncio, Natália, “dezenove aninhos, branquinha, corpinho perfeitinho, totalmente namoradinha, realiza suas fantasias reprimidas”. Não fosse uma garota de programa, Natália, certamente, seria uma fada ou a Branca de Neve.
Por Claudio Carneiro
—

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons
© Copyleft – É permitida a reprodução desde que citados autor e fonte.