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Ícone do novo jornalismo, Talese fez um balanço de sua carreira

O jornalista de 77 anos fala sobre seu novo livro em Paraty.

Durante pouco mais de uma hora, o escritor e jornalista Gay Talese, 77 anos, deu uma aula de jornalismo na Festa Literária Internacional de Paraty. Ele fez um balanço de sua carreira e anunciou o tema do próximo livro, que será o seu próprio casamento de 50 anos, “com a mesma mulher, e morando na mesma casa”.

Talese já escreveu sobre a Máfia (Honrados mafiosos), o New York Times (O poder e o reino), a Revolução Sexual (A mulher do próximo). O autor é um um dos fundadores do estilo que mistura a narrativa de ficção com a reportagem, conhecido como “novo jornalismo”.

Durante a mesa em Paraty, Talese contou detalhes sobre um dos episódios presentes em seu último livro, Vida de escritor — a reportagem sobre John Bobitt, que teve o pênis decepado pela mulher, descartada pela editora da revista The New Yorker, Tina Brown. Também lembrou o perfil que fez de Frank Sinatra sem ter trocado sequer uma palavra com ele.

— O que as pessoas dizem não é tão importante, porque geralmente elas falam o que querem ver publicado. Achei mais interessante conversar com as pessoas à volta de Sinatra, seus músicos, funcionários, trabalhadores humildes, que tinham percepções interessantes sobre o cantor.

Informações do Diário Catarinense.

A crise é dos jornais – e não do jornalismo

JORNALISTA E ESCRITOR
Gay Talese, em casa, em Nova York: perfis memoráveis e livros que marcaram seu tempo

O jornalista e escritor Gay Talese, 77 anos, é uma lenda viva. Como repórter, é autor de perfis memoráveis, e ainda hoje é lembrado pelo texto que escreveu sobre Frank Sinatra, publicado pela revista Esquire em 1966. Como escritor, é autor de onze livros, alguns dos quais marcaram época, como O Reino e o Poder, sobre seu ex-jornal, o The New York Times, e A Mulher do Próximo, uma estupenda reportagem sobre a revolução sexual nos Estados Unidos. Somando o repórter ao escritor, Talese tornou-se um dos mais festejados criadores do “novo jornalismo” – que investiga com as ferramentas de repórter e relata com os recursos literários de escritor. Já ganhou uns 10 milhões de dólares com seus livros e mora numa bela townhouse no elegante East Side de Manhattan. Está escrevendo agora sobre seu casamento de cinquenta anos com Nan, respeitada editora de livros. Em julho, Talese planeja visitar a Festa Literária Internacional de Paraty, para promover Vida de Escritor, lançado há pouco no Brasil, mas nem de longe seu melhor trabalho. Talese recebeu André Petry, correspondente de VEJA em Nova York, em sua casa para uma conversa que se estendeu por quase três horas. A seguir, um resumo.

A LOROTA DO IRAQUE

GUERRA DO IRAQUE
“Os repórteres de hoje cobrem a guerra dentro dos tanques das tropas americanas. É ridículo. Um repórter deve prestar contas ao seu jornal, e não ao coronel que está protegendo a sua vida”

“A imprensa americana caiu na lorota de que havia armas de destruição em massa no Iraque por algumas razões. Primeira: os atentados de 11 de setembro criaram um clima de espanto. Uma coisa é falar de guerra lá longe, na Normandia, no norte da África, falar do general Erwin Rommel, de Mussolini, Hitler. Outra é sofrer hostilidades de forças estrangeiras dentro de Nova York. Era inacreditável, e George W. Bush capitalizou isso. Ganhou enorme poder. Era o nosso defensor contra futuros ataques e o árbitro sobre o que era bom para nós. Fomos induzidos a acreditar que o governo tinha informações que nem o público nem o Congresso conheciam. A imprensa, muito crédula e um pouco ingênua, entrou no clima. Segunda razão: havia um fervor patriótico. A imprensa se sustenta com publicidade, e o pessoal tinha receio de ser percebido como antipatriótico – o que naqueles dias era o mesmo que ser anti-Bush – e acabar financeiramente punido, com os anunciantes debandando. O comediante Bill Maher fez uma brincadeira em seu programa na rede ABC, dizendo que os terroristas podiam ser chamados de tudo, menos de covardes, e foi retirado do ar. Essa atmosfera durou uns dois anos. Terceira: os jornais, Washington Post, The New York Times, efetivamente acreditavam no governo, e, por último, os repórteres que cobriam Washington eram muito diferentes dos repórteres do meu tempo, que cobriram a Guerra do Vietnã nos anos 60. Não eram céticos.”

A NOVA GERAÇÃO

“Os repórteres que estavam em Washington em 2002 não tinham o ceticismo, o estranhamento necessário. Foram educados nas mesmas escolas que o pessoal do governo. Eles vão às mesmas festas que o pessoal do governo. Seus filhos frequentam as mesmas escolas. Todos nadam na mesma piscina, pertencem ao mesmo clube de golfe, vão aos mesmos coquetéis. São repórteres prontos para acreditar no governo. É assim hoje, e era assim em 2002. Os repórteres estavam prontos para acreditar no governo sem pedir provas, evidências, nada. Por pouco, não acusaram Saddam Hussein de ter patrocinado os atentados de 2001. Eram como um bando de pombos para os quais o governo jogava milho. Os repórteres de hoje cobrem a guerra dentro dos tanques das tropas americanas. É ridículo. Um repórter deve prestar contas ao seu jornal, e não ao coronel que está protegendo a sua vida. Num evento público, eu me encontrei com o Arthur Ochs Sulzberger, que hoje dirige o Times, e disse a ele que isso estava errado, que repórteres não podiam trabalhar com militares, mas ele acha que estava certo. Na minha geração, éramos diferentes, éramos de fora, como estrangeiros. Podíamos ter nascido nos EUA, nossos pais podiam ter ido à universidade, mas ainda assim nos sentíamos como estrangeiros. Éramos todos de classe social mais baixa. Éramos judeus, irlandeses, italianos, alguns eram negros. Minha geração não era composta de anglo-saxões que estudaram em Harvard, Yale ou Princeton, que formavam e ainda formam a gente que vai trabalhar no governo ou em Wall Street. No meu tempo, James Reston (1909-1995) era chefe da sucursal do Times em Washington. Reston nasceu na Escócia, mas tinha muito orgulho dos Estados Unidos. Abe Rosenthal (1922-2006) era judeu, nascido no Canadá, seu pai era da Rússia. Meu amigo e o melhor repórter da minha geração, David Halberstam (1934-2007), era judeu, seu pai era um médico militar. Halberstam tinha um senso crítico, um ceticismo notável a respeito deste país. Harrison Salisbury (1908-1993) cobriu a II Guerra e, nos anos 50, foi à União Soviética quando Stalin estava no poder. Salisbury não acreditava em nada. Não acreditava em Stalin, nem em Dwight Eisenhower. Salisbury era como todos nós, de fora. No Vietnã, Salisbury foi para Hanói antes dos soldados americanos para pegar histórias do outro lado. Se Halberstam ou Salisbury estivessem vivos e trabalhando em jornalismo, jamais teriam comprado essa lorota do Iraque. O Times não teria tratado como informação o que era apenas desinformação e propaganda.”

A IMPRENSA E O GOVERNO

A CORTE DE OBAMA

“O governo usa a imprensa mais do que a imprensa usa o governo. Hoje, devemos ter uns 10 000 repórteres em Washington. Há uma civilização inteira de jornalistas em Washington”

“O governo usa a imprensa mais do que a imprensa usa o governo. Hoje, devemos ter uns 10 000 repórteres em Washington. Há uma civilização inteira de jornalistas em Washington. Se eu dirigisse um jornal, eliminaria de 50% a 60% da sucursal de Washington e mandaria os repórteres para outros lugares do país, para Califórnia, Nebraska, Flórida. Sabe o que aconteceria? Estaríamos tirando a ênfase sobre o governo e neutralizando sua capacidade de controlar o discurso político. Em vez de ficarmos segurando o microfone para o governo falar, estaríamos trazendo notícia sobre como as decisões do governo são percebidas e como são sentidas longe de Washington. Isso é vida real. É cobrir os efeitos das medidas do governo sobre a economia, a gripe suína, seja o que for, mas longe do governo e perto da sociedade. A multidão em Washington decorre do fato de que as pessoas adoram o poder e ficaram preguiçosas. Jornalista ama o poder, ama lidar com o poder.”

OS MALES DA TECNOLOGIA

“Com as novas tecnologias, e sobretudo com a criação da internet, o público hoje é informado de modo mais estreito, mais direcionado. Na internet, os jovens se informam de modo muito objetivo, no mau sentido. Eles têm uma pergunta na cabeça, vão ao Google, pedem a resposta, e pronto. Estão informados sobre o que queriam, mas é um modo linear de pensar e ser informado, que não dá chance ao acaso. Quem está interessado em saber sobre o presidente do Paquistão vai à internet, fica sabendo que ele andou visitando Washington, quem é o seu principal oponente, essas coisas. Quem lê um jornal impresso lê sobre tudo isso e depois, ao virar a página, lê sobre a mulher do Silvio Berlusconi, depois sobre as chinesas que perderam seus filhos naquele terremoto, depois sobre o desastre do Air France que saiu do Rio para Paris. Enfim, lê histórias que não procurou e, por isso, acaba adquirindo um sentido mais amplo do mundo. Claro que você também pode fazer isso na internet, mas o apelo da internet é o oposto. É oferecer informação rápida. A internet é o fast-food da informação. É feita para quem quer atalho, poupar tempo, conclusões rápidas, prontas e empacotadas. Quem se informa pela internet, de modo assim estreito e limitado, pode ser muito bem-sucedido, ganhar muito dinheiro, mas não terá uma visão ampla do mundo. Para piorar, surgiram esses blogs com blogueiros desqualificados, que apenas divulgam fofoca. São como uma torcida num jogo de futebol que fica o tempo todo gritando para os jogadores, para o juiz. É gente que não apura nada, só faz barulho.”

O POLITICAMENTE CORRETO

“O politicamente correto é um veneno para o jornalismo. Em 2006, aconteceu um caso exemplar. Na Carolina do Norte, uma mulher foi contratada para dançar numa festa dos jogadores do time de lacrosse da Universidade Duke e disse que bebeu demais e acabou estuprada por três jogadores. O caso ganhou as primeiras páginas. Os jornais nunca publicaram o nome da moça, e divulgaram fartamente o nome dos rapazes acusados do estupro. Ela era negra. Eles eram brancos. No fim, descobriu-se que ela era uma mentirosa. Os jornais, o Times inclusive, protegeram a mentirosa e expuseram os inocentes. Por que o Times fez isso? Porque queria ser sensível à situação de uma afro-americana. Jayson Blair, que publicou várias mentiras como repórter do Times, é outro exemplo. Ele foi contratado porque o jornal queria ter mais representantes das minorias, e Blair era negro. Foi contratado por Gerald Boyd, o primeiro negro a chefiar a redação do Times. Acima dele estava apenas o diretor de redação, Howell Raines, um branco do sul. Boyd e Raines queriam ser politicamente corretos e contrataram Blair porque era negro. E, porque era negro, faziam vistas grossas para os seus erros, deixavam passar, até que a coisa estourou. Só foram tolerantes com os erros de Blair porque queriam ser politicamente corretos. No jornalismo, isso não funciona. O jornalismo tem de ser vigilante, justo, realista, disciplinado, e não se preocupar em ser ou parecer politicamente correto.”

O FUTURO DO JORNALISMO

“A crise dos jornais americanos não é uma crise do jornalismo americano. Moro em Nova York há cinquenta anos. Já vi muitos jornais fechar as portas. Nos anos 60, acabou o The New York Herald Tribune, que era um grande jornal, mas grande mesmo. Antes, fechou o tabloide New York Daily Mirror. Eu cresci lendo revistas como Life, Saturday Evening Post, Look, e nenhuma delas existe mais. Em Nova York havia quinze jornais. Quando cheguei aqui, em 1959, eram sete. As pessoas esquecem que os jornais vão e vêm. O jornalismo, não. As pessoas vão sempre precisar de notícia e informação. Sem informação não se administra um negócio, não se vende ingresso para o teatro, não se divulga uma política externa. Todos os dias, nos jornais das cidades grandes ou pequenas, repórteres vão à rua para fazer o que não é feito por mais ninguém. De todas as profissões, se um jovem estiver interessado em honestidade e não estiver interessado em ganhar muito dinheiro, eu aconselharia o jornalismo, que lida com a verdade e tenta disseminar a verdade. Há mentirosos em todas as profissões, inclusive no jornalismo, mas nós não os protegemos. Os militares acobertam mentirosos. Os políticos, os partidos, o governo, todos fazem isso. O escândalo do Watergate é uma crônica de acobertamento. Os jornalistas não agem assim, não toleram o mentiroso entre eles. Acho uma profissão honrosa, honesta. Tenho orgulho de ser jornalista.”

Gay Talese: “Internet não é trabalho de gente original”

Um faro de repórter aguçado pelo interesse em novas pessoas. É como estará Gay Talese de quarta-feira até domingo. Um dos maiores nomes da Flip, o mestre do new journalism – que mescla técnicas de reportagem com estilo literário – falou ao Jornal do Brasil sobre a curiosidade embalada por arte que o moveu ao longo da carreira, do lado bom e ruim de ser escritor e da incessante busca por uma espécie de “realismo mágico”, presente em histórias que passariam por mentira se não fossem reais, como a trajetória quase ficção de Barack Obama. Avesso a novas tecnologias, o jornalista famoso por perfis de fôlego explica por que o tipo de jornalismo feito em sua época não morrerá tão cedo e se mostra cético em relação à morte da mídia impressa. “As reportagens consistentes não são feitas por meio de blogs, mas por pessoas que deixam o laptop e vão a campo ver como as coisas estão acontecendo”, diz.

Em ‘Vida de escritor’, lançado aqui em maio, você se desnuda, mostra conquistas e fracassos. O que aprendeu e o que faria novamente?

Meu pai nasceu na Itália e era um grande alfaiate, fazia roupas maravilhosas. Aprendeu a costurar na Itália, não ganhou dinheiro algum como alfaiate, mas era excelente. Ele não foi recompensado financeiramente, mas foi recompensado pelo fato de fazer coisas que eram obras de arte. Eu via como ele trabalhava, suas motivações. Não queria ser alfaiate, mas queria escrever dramas de formas que fossem além do amanhã e do hoje. O jornalismo em sua maior parte é uma profissão muito preciosa. Eu queria ter uma carreira em que eu fosse uma espécie de artesão como meu pai, mas não fosse tão pobre. Então, o jornalismo foi perfeito para mim. Uma das razões é que eu tenho muita curiosidade sobre as pessoas. Não há profissão que se compare ao jornalismo para um curioso que quer saber sobre outras pessoas. E por ser um jornalista você tem a desculpa de invadir a privacidade de outras. Falo com pessoas há 50 anos. Tenho 77; comecei quando tinha uns 26 anos no New York Times. E quando comecei a me preocupar mais, não com o que eu apurava, mas com a forma como escrevia, meu interesse pela literatura ficou mais importante. Eu queria usar ferramentas da ficção, diálogos, narrativas. Queria escrever de uma forma que pudesse ser imaginada. Este livro é sobre o tipo de escritor que sou e ambicionava. É o trabalho de um indivíduo que passa muito tempo entendendo as pessoas antes de escrever sobre elas.

Seu livro é visto por alguns especialistas como compilação de ideias e pedaços de outros que não foram adiante, costurados pela busca por uma ideia genial. O livro, afinal, é uma visão sua sobre a vida?

Sim, é sobre como eu escrevo, como eu consigo fazer as pessoas falarem comigo, como é a minha relação com as pessoas sobre as quais eu escrevo. É sobre como eu escrevo. Muitas pessoas acham que é algo simples, é só sentar em frente ao computador, jogar algumas palavras na tela, mas é muito mais do que isso. Falo dos passos que um escritor tem de seguir. Do lado bom e do ruim da vida de um escritor.

Há grande expectativa em relação à sua vinda. O que conhece do Brasil e qual a ideia que tem sobre o país? No Brasil, a que seu faro de repórter estará atento?

Eu nunca tinha ido ao festival antes, mas já estive no Brasil há uns seis, sete anos. Minha mulher (Nan Talese), que é editora de livros, esteve aqui três anos atrás e me falou sobre o festival. Li muito sobre ele, ouvi escritores que estiveram aqui. Pretendo conhecer pessoas, li as obras de muitas delas e vou ter a oportunidade de conhecer pessoas de todo o mundo, do Brasil, China, França e EUA. É um evento internacional de grandes consequências literárias.

No livro, você descreve conflitos em Selma, Alabama. Para alguém que estudou no Alabama, cobriu isso e viu a questão racial mudar nos EUA, o que representa a chegada de Barack Obama?

A história de Obama parece ficção. Eu tentava explicar a diferença entre ficção e não ficção, mas, se você olhar para a vida de Obama, não consegue acreditar. O pai de Obama o abandonou quando tinha apenas 3 anos. A mãe dele era apenas uma estudante no Havaí e tinha um filho de 3 anos e um marido desaparecido. O marido deixou o Havaí, se apaixonou por uma outra mulher branca e voltou para a Nigéria com ela. Sua mãe então foi para a Indonésia, levando o pequeno Obama com ela, e lá conheceu um homem com quem se casou e teve uma filha. Depois, Obama voltou para o Havaí com a mãe e lá continuou com os avós, brancos, enquanto a mãe retornava à Ásia. A história soa confusa. Que chances esse menino teria de concluir o ensino médio, de virar um viciado em drogas? Que chances pode ter um garoto sem apoio paterno, sem pai, sem padrasto? Esse garoto teria sorte de não ir para a cadeia. Nós só acreditamos nessa história porque sabemos que ela aconteceu realmente. É uma história inacreditável, que se aproxima do realismo mágico. E se você escrevesse um livro de ficção sobre um garoto negro, nascido no Havaí de mãe branca e pai negro, que 40 anos depois se torna presidente dos EUA, ninguém acreditaria. Ninguém publicaria. Barack Obama é realismo mágico. É não ficção. É ficção.

Durante a gestão Bush, você costumava criticar a imprensa. Agora, com Obama, em que temos de nos policiar?

A imprensa no governo Bush devia ser criticada. Ela não fazia um trabalho duro para expor as mentiras da presidência Bush. Entramos em uma guerra no Iraque que foi o maior erro dos últimos 20 anos. Obama é a única esperança de nos recuperarmos dos oito anos desastrosos do governo Bush e seus colegas que fizeram os americanos se sentirem envergonhados. Falhamos em muitos aspectos de uma forma pior do que quem criticamos. Espero estar certo de que esses dias acabaram. Pessoas como eu, nos últimos anos de vida, podem acreditar que viram um milagre com a eleição de Obama.

Lamenta não haver, por tempo ou dinheiro, trabalhos como você muitas vezes fez, de ficar semanas atrás de uma história?

Não acho que sou o último. Há pessoas agora que têm 25, 35 anos que vão continuar a fazer o mesmo que eu fazia. Vão ter de esforçar mais, o que talvez seja um desafio. O bom jornalismo não é coisa do passado. O que é coisa do passado é o número de jornalistas e o número de bons jornais. Ser jornalista é ter de enfrentar competição que não era tão acirrada quando eu era jovem. Mas não acho que seja o fim dos jornais, dos impressos, porque as reportagens consistentes não são feitas por meio de blogs. São feitas por pessoas que deixam o laptop e vão a campo ver como as coisas estão acontecendo para depois relatá-las. Você não pode ser um repórter ficando atrás de um laptop numa sala fechada. Tem de sair, viajar, ver por si mesmo. Esse tipo de repórter não fica obsoleto. É ele que torna os jornais especiais. Internet não é trabalho de gente original, é trabalho de quem pega o que saiu nos jornais e cria o texto usando o verdadeiro trabalho de quem saiu a campo.

O jornalismo on-line é o fim da reportagem? O que acha de blogs e do Twitter?

Não acho que acabe com o impresso. Não sei sobre blogs, não uso internet nem celular. Não acredito na tecnologia. É preciso ir ao local. Não dá para comparar uma conversa ao vivo com uma pelo telefone. Você tem de olhar nos olhos da pessoa com quem está falando.

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